Entre linhas: Vai ser uma vez


Se todas as histórias de amor começam com era uma vez a minha com certeza começa com “quase foi um milhão de vezes”. E se quase foi amor, não foi. E se não foi, não se trata de uma história de amor, só de uma história.
Então se eu precisasse de uma introdução para o livro da minha vida eu diria que ela está pronta.
Quase foi amor com o garoto da loja de cd’s. Quase foi amor com o vizinho de cabelo enrolado. Quase foi amor com o menino tímido do meu primeiro beijo. Quase foi amor com o sem vergonha daquela faculdade. Quase foi amor com o melhor amigo da minha amiga de internet. Quase foi amor com o garoto da van. Quase foi amor um milhão de vezes, mas não foi.
E embora quase tenha sido amor, doeu como se realmente fosse. E eu entrei debaixo dos cobertores acreditando que realmente era. E talvez até hoje eu me pergunte o que foi aquilo senão amor. E logo depois despergunto, porque é impossível que tenha sido amor um milhão de vezes. Ninguém ama um milhão de vezes. Foi desilusão.
Ou não foi. Porque (des)ilusão é aquilo que não é mais ilusão. E o que não é ilusão, é real. E se quase foi real, não foi de fato amor e nem desilusão. Era ilusão mesmo.
Era uma vez uma ilusão e duas e três e um milhão. E todos os des do mundo que eram possíveis de entrar para negar um sentimento. Era desilusão, era desamor, era desafeto, era descaso, era desespero. Era tudo isso, menos o que deveria ser.
Não teve pipoca, coca-cola, bala de goma, cinema, mãos dadas. Não teve passeio no parque, nem frescobol na praia, nem clube de jardinagem aos domingos. Não teve roda gigante porque era tudo montanha russa. Não teve tempo que curasse o amor porque ele não estava doente, ele só não existia.
Teve mentira e atraso. Teve lágrima, uma atrás da outra mesmo quando ainda parecia amor. Teve dor. Teve mágoa. Teve ilusão. Teve tanta repetição disso tudo que eu realmente me perguntei porque a gente demora tanto pra trombar com a pessoa certa. E pra cair em cima dela sem querer. E embolar os pés, as mãos, os corações. Porque que a gente atrasa a vida de tanta gente que também fica procurando o certo no lugar errado e machuca a gente. E se machuca. E se magoa. Porque não da pra simplesmente derrubar os livros no chão e esperar o cara da sua vida te ajudar a pegar? Porque não dá para ser uma vez?  Para a Cinderela, para a Branca de neve, para a Rapunzel, uma vez só foi o suficiente. E pra mim também ia ser. Ia ser uma vez incrível. Dessas com direito a aparecer em filme de romance e encher a cara de DESilusão porque quem já tem amor não precisa se iludir.
Sobre a autora: Carolina Ruedas, 21 anos, estudante de Letras. Dona do blog Abraçando Elefantes, escreve textos maravilhosos, que você precisa conhecer. 

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